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Ao longo do rio que o povo Xavante chama de Owawê estão muitos dos seus territórios sagrados, vilas e cemitérios. Também é onde o ritual fura-orelha é realizado, marcando, para os meninos, a transição entre a juventude e a idade adulta.
Mas um projeto ferroviário—a Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (FICO)—ameaça separar ainda mais uma população já fragmentada. Ainda que a primeira fase do projeto esteja perto de estar completa, as lideranças Xavante dizem que o governo não lhes deu consulta prévia e informada, prevista pela legislação. As lideranças dizem que problemas como insegurança alimentar, invasões por madeireiros e o enfraquecimento da organização do povo tendem a piorar quando grandes projetos invadem seus territórios.
Uma delegação com Hiparidi Top’Tiro, chefe Xavante da vila Abelhinha no território do Sangradouro; Missia Ihiwe Urace, outro líder Xavante; e aliados, como o povo Xikrin e o grupo de defesa dos direitos indígenas Cultural Survival, viajaram para Genebra em julho para levar essa questão à 19ª sessão do Mecanismo de Especialistas das Nações Unidas em Direitos dos Povos Indígenas (EMRIP).
O EMRIP é um mecanismo do Conselho de Direitos Humanos da ONU que fornece expertise e aconselhamento sobre os direitos dos povos indígenas, ajudando os estados membros a alcançar os objetivos da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas.
“Nós sabemos que a ONU não vai obrigar o país a fazer o que ela está falando,” disse Top’Tiro. “Mas pelo menos o mundo vai estar sabendo o que está acontecendo. É importante que muitos parceiros estejam ouvindo as nossas falas e as nossas denúncias.”
O povo Xavante coleta recursos naturais essenciais para a vida em suas aldeias e para rituais em algumas áreas próximas ao rio, conhecido em português como Rio das Mortes. Top’Tiro disse que o rio recebeu esse nome depois que as forças expedicionárias brasileiras repetidamente jogavam os corpos de Xavantes mortos no rio durante suas batalhas entre 1949 e 1950.
Ele disse que a ferrovia vai passar sobre esses locais importantes, cemitérios e outros locais sagrados “sem respeitá-los.”
A FICO tinha como objetivo inicial integrar a maior região agrícola do país à rede ferroviária norte-sul, permitindo que grãos e outras culturas fossem transportados diretamente para os maiores portos ao longo da costa, além de reduzir as emissões de gases estufa ao retirar caminhões das estradas.
Mas desde 2015 o projeto desenvolveu um aspecto geopolítico, depois que Brasil, China e Peru assinaram um tratado para começar a pesquisar a possibilidade de conectar as regiões do país ricas em agricultura e mineração aos portos peruanos—e especialmente depois que o Peru, em 2024, inaugurou um porto de águas profundas majoritariamente controlado pela gigante chinesa de transporte marítimo Cosco.
O país estabeleceu a meta de aumentar a participação do transporte ferroviário de cargas em volume—a porcentagem de viagens com esse tipo de transporte—para 35% a partir da participação atual de 25% até 2035. O Banco Mundial, em uma análise do projeto, disse que atingir essa meta reduziria o número de veículos pesados nas estradas e diminuiria as emissões.
Ano passado, a China investiu US$50 bilhões em infraestrutura, logística e o que chamou de “desenvolvimentos sustentáveis” na região Centro-Oeste do Brasil. Esse investimento criaria um caminho para que as commodities fluíssem mais diretamente do Brasil para a China, seu maior parceiro comercial, contornando o Canal do Panamá.

Um Aviso Se Torna Realidade
O povo Xavante têm nove territórios registrados na Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), três dos quais ficam ao norte da proposta ferrovia FICO. Todos os territórios estão localizados nas partes mais a leste do estado de Mato Grosso e ocupam uma área de cerca de 14.719 quilômetros quadrados.
Top’Tiro disse que agora o povo Xavante estão todos fragmentados, um contraste com a época em que seus ancestrais, antes da década de 1930, viviam em um território contínuo ao longo do Rio das Mortes. Ele acredita que essa fragmentação foi intencional.
“Em razão da terra não ser contínua, o empreendedor nesse cacifo está aproveitando para fazer mais divisão entre nós,” disse Top’Tiro. “Nesse sentido, é muito ruim essa história … de não ter uma comunicação contínua com nosso povo. Isso custa nossos sonhos e a ligação com os nossos parentes.”
Djalma Aranã Caboclo, parte da equipe do Cultural Survival que acompanhou a delegação em Genebra, disse que seu próprio povo, os Aranã Caboclo, está lutando contra o governo brasileiro há 22 anos pela demarcação de seu território no Vale do Jequitinhonha, que atravessa os estados da Bahia, Minas Gerais e São Paulo. Ele disse que, enquanto o processo de demarcação de suas terras é lento, licenças para exploração de recursos naturais, como a mineração de lítio, são emitidas muito rapidamente.
“Nós exigimos que nossos direitos sejam respeitados, que nossos territórios sejam protegidos, que nossa vida seja protegida e que nossa integridade cultural seja realizada, reconhecida e respeitada,” disse Caboclo em uma postagem no Instagram. “O desenvolvimento não pode vir ao custo dos povos indígenas. A transição energética não pode se tornar uma nova forma de violência colonial.”
O Projeto FICO
O projeto de integração ferroviária está dividido em três fases.
A primeira fase, com um trajeto de 383 quilômetros projetado para cargas pesadas, liga a cidade de Mara Rosa, no estado de Goiás, à Água Boa, em Mato Grosso. Foi iniciada em 2021 e estima-se que seja concluída em 2028. Mara Rosa também faz parte do trajeto de outro projeto ferroviário que, se aprovado, ligará a região Centro-Oeste ao porto de Ilhéus, na Bahia.
A segunda e a terceira fase do projeto conectarão a cidade de Mato Grosso com outros municípios ao norte, alcançando o estado de Rondônia.
A FICO é um projeto da Infra S.A., uma empresa pública federal de capital fechado ligada ao Ministério dos Transportes do Brasil. A gigante brasileira de mineração Vale permitiu que parte dos recursos de dois de seus projetos de renovação ferroviária fossem enviados para o projeto por meio de práticas de investimento cruzado, um modelo de financiamento geralmente usado em projetos de ferrovias que permite que recursos de uma concessão sejam usados para financiar projetos de interesse público em outras áreas.
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Donate NowPara uma parte do setor agrícola de Mato Grosso, a FICO foi recebida com grandes expectativas por impulsos na infraestrutura logística da região. Luiz Pedro Bier, vice-presidente da Aprosoja, a associação brasileira dos produtores de soja, disse ano passado à Gazeta do Povo que os gargalos em algumas das rodovias do estado que não têm pavimentação ou obras comprometem a competitividade de seus produtos no mercado.
Enquanto o desmatamento da Amazônia no Mato Grosso recentemente teve quedas acentuadas, muitas das áreas de proteção ambiental, que frequentemente se sobrepõem a territórios indígenas, não foram totalmente protegidas contra o desmatamento. A área de proteção ambiental Triunfo do Xingu, no estado vizinho do Pará, perdeu 35 quilômetros quadrados entre agosto de 2025 e março de 2026.
Em 2018, 176 quilômetros quadrados de floresta foram derrubados em Areões, um dos territórios demarcados do povo Xavante, segundo a agência espacial brasileira. Isso segue um desmatamento de mais de 55 quilômetros quadrados em 2017 no mesmo território.
Repetindo os Mesmos Erros
Quando mais de 50 países, incluindo o Brasil, se reuniram em Santa Marta, Colômbia, em abril para traçar planos específicos para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis, organizações indígenas, como a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), estavam esperançosas por um avanço decisivo.
Para as comunidades indígenas que viajaram para Genebra, essa esperança durou menos de três meses.
Bekroiti Xikrin, um líder do povo Xikrin que também participou da delegação que foi para Genebra, disse que o padrão de não consultar os povos indígenas antes de avançar com projetos de infraestrutura e energia mostra que o desenvolvimento econômico ainda é priorizado em relação aos direitos dos povos.
Com território demarcado no estado do Pará, o povo Xikrin sofre com as consequências trazidas pelas operações da Vale, incluindo uma das maiores minas de ferro a céu aberto do mundo, antes administrada pela U.S. Steel. A Vale teria sido responsável por poluir o rio Cateté com chumbo, mercúrio, manganês, alumínio e ferro com seu projeto de mineração de níquel Onça Puma, próximo às comunidades Xikrin. A empresa negou sua responsabilidade pela contaminação.
Bekroiti Xikrin disse que vir a Genebra era uma forma de mostrar ao mundo a realidade dos povos indígenas, assim como as dificuldades encontradas em seus territórios.
“A transição energética é importante para as mudanças climáticas,” ele disse. “[Ela] não pode repetir o mesmo erro que já foi cometido no passado. Não existe energia verdadeiramente verde se ela for construída às custas da destruição dos territórios indígenas … nós indígenas protegemos a florestas há gerações, e não se pode combater a crise climática criando novas injustiças.”
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